terça-feira, outubro 31, 2006

Terrenos da Confraria de Santa Quitéria

Opinião
por Eduardo Teixeira
(deputado da Assembleia Municipal)





A Confraria, o padre Zé e Fátima Felgueiras

Sou cristão e católico praticante; fiz parte dos estudos secundários no Seminário Vicentino de S. José, em Lagares. Durante toda a minha juventude, estive muito ligado à acção pastoral da minha paróquia natal, que é Lagares. Como tal, modéstia à parte, acho que tenho uma cultura religiosa e bíblica mais que suficiente para incutir e praticar os princípios doutrinários da Igreja Católica.



Contudo, como católico, sinto-me um pouco perplexo com a atitude de certos católicos, inclusive clérigos locais e ao nível da diocese, que, a meu ver, infelizmente têm uma postura de subserviência – não propriamente de cumplicidade – com o poder político, mormente no que diz respeito aos presidentes de câmara. Esta não é uma crítica destrutiva mas construtiva, nem a faço para retirar quaisquer dividendos políticos. Aliás, faço esta crítica devido à ligação afectiva que tenho com a religião católica, para poder melhorar ou corrigir certos comportamentos. Essa subserviência, a meu ver, na generalidade dos casos, advém da psicose que certos padres demonstram ao possuírem o medo de sofrerem represálias ou descriminações de determinado caciquismo autárquico. Porém, noutros casos, há clérigos que, de uma forma ostensiva para a acção pastoral, andam sempre atrás do poder, a fim de conseguirem os mais variados privilégios.



Nos últimos anos, em Felgueiras, esta promiscuidade entre religião e política tornou-se deveras chocante. Felizmente que em Felgueiras temos um bom exemplo de um sacerdote já falecido – um padre na sua acepção da palavra -, que foi o padre Zé de Lagares e Torrados. Foi um padre revolucionário, no bom sentido do termo, no ensino da doutrina católica e ainda com grande desempenho social. Basta lembrar o trabalho que deixou junto dos mais carenciados das paróquias que serviu, Lagares e Torrados. São muitas as famílias que, ainda hoje, têm casa própria devido à acção social e caritativa do saudoso padre Zé, que, para abraçar tais projectos sociais, nunca precisou de bajular o poder camarário.


Recordando ainda o senhor padre Zé, qual não foi o papel preponderante deste pastor da Igreja à frente da Confraria de Santa Quitéria?!... Um homem íntegro! Honesto! E, coisa rara hoje na Igreja e na sociedade felgueirenses, era um homem de grande frontalidade, sempre mais próximo dos pobres do que dos poderosos locais. Orgulho-me de ter sido ele o padre que me baptizou, o pároco sob o qual fiz a primeira Comunhão e a Profissão de Fé; que foi também meu professor e a quem muitas vezes ajudei na celebração das missas. Lamento que, hoje, não apareçam sacerdotes da envergadura do padre José Peixoto Dias. A propósito, para quando uma justa homenagem a este grande cidadão felgueirense por parte do poder municipal?



A contrariar o testemunho moral e pastoral deixado pelo senhor padre Zé, hoje deparamo-nos com uma parte (felizmente, não toda) da Igreja do concelho e até a própria diocese envolvidas em certos comportamentos de subserviência e promiscuidade entre religião e política, que, refiram-se de passagem, são deveras chocantes e comprometedoras para a acção pastoral.



O passeio anual de idosos a Fátima organizada pela Câmara Municipal de Felgueiras é uma autêntica negação dos princípios religiosos, com a exploração de sentimentos marianos para fins políticos.



Em 2001, o “comício” feito pelo pároco de Airães, padre Azemiro Oliveira, no altar da Capelinha das Aparições, ao lado do então bispo de Leiria-Fátima, Serafim Ferreira, e da presidente da Câmara Municipal, Fátima Felgueiras – que, por sinal, até se vestiu toda de branco para o efeito -, aludindo à inocência da autarca, foi a maior aberração do Cristianismo de que tenho memória, só comparável ao que sucedeu na excursão deste ano, em que Fátima Felgueiras distribuiu e mandou distribuir, por cerca de 5 mil peregrinos, um luxuoso panfleto, pago pelo dinheiro dos munícipes, que continha a foto da autarca ao lado da Senhora de Fátima e dos três Pastorinhos. Heresia mais pura é muito difícil encontrar!



Para além de toda esta promiscuidade, tem-se verificado reiteradamente actos religiosos altamente politizados pela autarca, como, por exemplo, a exigência que a mesma faz aos padres para ir ler as leituras nas missas mais cerimoniosas, como na do S. Pedro e nas das outras festividades do concelho. E outras situações de politização de actos religiosos se têm verificado.

"Se o padre Zé, no seu sagrado túmulo,

tiver conhecimento desta tentativa de usurpação,

podem crer que até os seus ossos

darão voltas e mais voltas na sepultura".



Perante tudo isto, a hierarquia da Igreja tem estado muito calada. Quando confrontada pela Comunicação Social sobre esta exploração dos sentimentos religiosos, não se manifesta, quer a nível das comunidades paroquiais locais, quer a nível diocesano. Este silêncio, sendo sempre comprometedor, acaba por condicionar a acção pastoral; retira à hierarquia índices de coerência e de autoridade. Tem de haver, necessariamente, uma mudança de atitude por parte da hierarquia religiosa. Não lhe peço que tome partido contra o poder instalado – a sua função terá de ser sempre de respeito e de distância em relação à política.



O caso que vem extremar toda esta situação é o facto de a Câmara Municipal (melhor dizendo, a senhora presidente, Fátima Felgueiras) estar a querer assoberbasse de uma importante parcela de terreno (cerca de 5 hectares) do monte de Santa Quitéria, que faz parte, num total de 17 hectares, da Confraria. Se o padre Zé, no seu sagrado túmulo, tiver conhecimento desta tentativa de usurpação, podem crer que até os seus ossos darão voltas e mais voltas na sepultura.


Ao que consegui apurar, a Confraria tem em sua posse documentos comprovativos de que esses 5 hectares fazem parte do seu património, através de um registo de propriedade da Conservatória do Registo Predial, bem como, entre outros, um acórdão do Supremo Tribunal de Justiça, com data de 1936.



Que provas tem a Câmara?... Nenhumas, por aquilo que já apurei.



Levei o assunto à Assembleia Municipal; questionei a senhora presidente da Câmara, para esclarecer este assunto, mas, neste e noutros casos incómodos, não respondeu, recorrendo ao habitual silêncio comprometedor. Aliás, neste caso, a senhora presidente está a tomar uma atitude do seu nível – eu quero, posso e mando!" –, com a qual não podemos estar de acordo, porque é inaceitável em democracia. O senhor vereador Horário Reis, que já foi juiz da Confraria, terá algo a ver com este processo? Tendo em atenção que o senhor vereador conhece bem os cantos à casa – onde, em Maio do ano passo, promoveu a reunião fundadora do movimento “Sempre Presente” –, não devia agora tomar uma posição de solidariedade e de defesa dos exclusivos interesses da Confraria?



Não sou Irmão da referida instituição, mas, pelo menos como católico praticante, tenho legitimidade suficiente para vir perguntar publicamente aos responsáveis da Confraria sobre o que se está a passar. Sei que jornalistas já confrontaram a direcção da instituição, mas a mesma remete-se ao silêncio. Será que não têm coragem suficiente para enfrentarem a presidente da Câmara, no direito inalienável de defenderem o património religioso?


Será que os dirigentes da Confraria, por tabu imposto por Fátima Felgueiras, não têm coragem para tomarem uma posição pública e levarem o assunto a Tribunal? Não podemos ter medo do próprio medo. HAJA CORAGEM!



Tenho conhecimento que, no próximo domingo, dia 5, vai realizar-se uma Assembleia-Geral de todos os confrades. O cúmulo será se ninguém levantar a questão na reunião.


Como católico, apelo à comparência de todos e que debatam o assunto com dignidade mas também com determinação. Sem medos de coacção.



Que a memória do senhor padre José Peixoto Dias, GRANDE OBREIRO DA CONFRARIA e referência de coragem, honestidade e frontalidade, esteja presente, no domingo, na mente de todos os confrades presentes na Assembleia-Geral.