sábado, março 21, 2009

Dia mundial da poesia


AS AÇUCENAS

As açucenas rebentam primeiro que a flor macia
E trazem consigo manhãs mais puras de Setembro;
Amadurecem com os frutos indeléveis e frágeis,
De suculentos brilhos nocturnos.

São feitas, as açucenas, de ar e perfumes
Lançados em barlavento de Outubro;
Pedem mais, e que mais!, ossos de passarinho,
Que musicam para nós um ouvido fértil.

De memórias e sombras, oculta esta a razão,
Este o saber e a técnica dos papagaios tristes
E cabisbaixos de nada. São aves raras na pequenez do seu pensar,
Mas revestem em si mesmas a pele – esta vontade de voar!

A liberdade é assim. E todos nós assim seremos:
Nascerá uma pessoa nova logo que as açucenas o anunciem.
Para isso, basta... Bastará, com certeza, a concertina ou a viola do cavador,
Que amanha a terra nas tardes quentes do Verão!

Não queiras, andorinha, saber qual tua a liberdade;
Não interrogues em ti mesmo a incerteza das vinhas.
O pão é certo. O verbo existe,
E, no fundo, lá bem no fundo, as palavras já te dizem tudo.

José Carlos Pereira
in "Sem Síntese de Mim"

quinta-feira, março 19, 2009

Malícia de franciscano


Ser é estar. Optar não é só escolher; é também viver. Viver é testemunhar. Francisco, o de Assis, assim prosseguiu, na sua missão humilde e grandiosa, na busca da revolução espiritual do Homerm. Pelo Homem Novo!
A mudança do mundo, melhorar o planeta e os humanos que lhe dão vida exige não só a modificação das estruturas sociais, mas também, e em primeiro lugar, a transformação do Homem no seu âmago, que é o coração, donde vem todo o testemunho e a poesia dos actos. Isso é Cristianismo, que privilegia o indivíduo, mais do que qualquer colectivo. Porque este é massificador, muitas vezes vezes injusto e poder absoluto, logo não abrangente no seu humanismo, muito relativo e subjectivo na acção. O Cristianismo ouve em primeiro lugar; depois até pode actuar, conforme as sinergias existentes na ocasião e no lugar. É por isso que há bons exemplos, como o de Francisco de Assis. E é por isso que o Cristianismo jamais morrerá.
A notícia, do Correio da Manhã, de hoje, de que o padre franciscano Vítor Melícias recebe uma pensão de 7.450 euros/mês vai inteiramente contra a utopia cristã. À parte os merecimentos, as competências, os cargos honrosos desempenhados, as obrigações sociais prestadas nas folhas de vencimento, é incompatível, totalmente incomportável, com o ideal franciscano chegar-se ao fim da vida com uma aposentação destas. Cristo e Francisco de Assis não se deram tão bem com o mundo e com o pecado organizado para merecem tamanha honraria. Já para não falar do voto de pobreza que o padre teve que fazer para ingressar na ordem franciscana.
Melícias até pode dar todo o dinheiro da verba mensal aos pobres, aos doentes, a toda a beneficiência... Mas isso não chega. O primado ético e moral dos franciscanos não vai por aí. O problema está no pecado organizado e, sejamos francos, na falta de testemunho, na forma como se chegou a tamanha honraria - benesse de nunca o beneficiário se ter dado mal com os poderes e com os poderosos. O seu reino não deveria ser o deste mundo, seguindo as instruções do Mestre.
Esta notícia entristece, sem dúvida. E desgosta. Tira brilho e poesia. Teria sido muito melhor que Melícias não nos tivesse cansado com tantos e bonitos sermões.
Bem prega Frei Tomás!...

terça-feira, março 17, 2009

Olha que lindo! O Avelininho de galochas e fato-macaco!

Clique no cartaz para o ver melhor
O Avelininho é pau para toda a obra! Não nos referimos às obras sociais, nem, muito menos, às obras literárias.

O Avelininho, há quatro anos, bem tentou, bem acreditou, conquistar a Câmara de Amarante, na sua pouco lendária corrida às autárquicas, à boa maneira dos presidentes de câmara arguidos que gostam de "fugir" para o Poder. Mas falhou, a eleição! O resto, só Deus é juiz verdadeiro.

Apesar de ter dito na campanha eleitoral que, logo que ganhasse as eleições, iria mandar calar os pianos dos concertos musicais promovidos pela autarquia e que iria ouvir-se mais a “música” dos “catrapilers” – ou seja, grandes obras para o concelho –, o Avelininho falhou a eleição. Imaginem!

As grandes obras, como o saneamento e as creches, não enchem o olho das pessoas, logo o Avelininho não teria que se preocupar com isso. Bastaria rasgar um monte ou um campo para mostrar à população amarantina que a sua obra - “grandiosa"! - iria perpetuar o nome do autarca, o da família e os dos amigos pelas ruas da cidade, como aconteceu em Marco de Canavezes: o estádio tem o nome do Avelininho, o FC Porto tem uma avenida, Jorge Nuno Pinto da Costa tem outra via. Ao que consta, até a D. Rosa, esposa do Avelininho, lá tem o seu nome, num beco qualquer (com o devido respeito, claro!).

O Avelininho, depois, certamente, preparar-se-ia para privatizar a água ao domicílio, contra a qual, há muito, se indignou Armindo Abreu, que, a propósito disso, lembrou às pessoas ser "uma pessoa de Esquerda” Ainda bem, meu caro, porque há muita a gente a dizer-se de Esquerda que, findas as contas, não é nada!

Um povo inculto, normalmente, não vê, muito menos obra por baixo da terra (como, p.ex., o saneamento) e obras sociais (como, p.ex., as creches). E um povo que não gosta de pianos, que gosta mais de Tony Carreira, geralmente, deixa de ter assuntos sociais na mente. É que a “toada pimba”, de que parece gostar mais o Avelininho, tira a nobreza e a criatividade à alma; engelha a inteligência emocional.

É preciso ver sem olhar. Aliás, Sousa-Cardozo via os seres e as coisas inanimadas por dentro. Pintava na tela o que vislumbrava por dentro dos alvos - característica fundamental do Cubismo. E os parolos do seu tempo - atenção, do tempo de Sousa-Cardozo! -, quando viram a primeira exposição do pintor na Faculdade, ao verem que ele só pintava "gatafonhadas", correram o pobre artista a pontapé. É que, para vermos, o coração tem que ser inteligente, também. A emoção, de que nos fala António Damásio.

Amarante – terra de Pascoaes, de Souza-Cardoso, de Agustina e de outros vultos da cultura portuguesa –, deu provas inequívocas da sua maturidade cultural e cívica, que não vai em populismos (olhem que é uma raridade no Norte!) Apesar de ser um concelho pobre, é rico em espírito. A tradição cultural de Amarante é um genes positivo junto da população para a definição clara da diferença – entre o trigo e o joio –, não obstante as históricas assimetrias sociais, agora mais esbatidas, entre a cidade e as freguesias do concelho.

Este ano, o Avelininho, já refeito do falhanço em Amarante, insiste em sonhar o seu regresso ao Poder. Num gesto de grande inquietude, de "autarca-herói" e de virilidade guerreira, é candidato ao Município de Marco de Canaveses, na tentativa de destronar… o seu sucessor na presidência na Câmara, Manuel Moreira. Afinal Narciso Miranda vai tentar o mesmo em Matosinhos, contra Guilherme Pinto.

Salvo raras excepções, isto é o Norte no seu melhor!... É o Norte do País! Região para qual durante milhares de anos povos oriundos de toda a Europa se refugiaram e se digladiavam, porque, tendo o Atlântico a Oeste e a Noroeste, já não podiam fugir mais.

sexta-feira, março 13, 2009

Rui Goulart vem a Felgueiras | dia 21

Terá lugar no próximo dia 21 de Março, pelas 15h00, no Auditório da Biblioteca Municipal Dr. Miguel Mota, a visualização do filme 1.ª Vez 16mm.
Inserido nas comemorações do Dia Mundial da Juventude, este filme do realizador Rui Goulart retrata as atribulações de um jovem cineasta que tenta vencer vários obstáculos para realizar a sua primeira longa-metragem, entre 1986 e 1987. Finalista da Escola de Cinema de Lisboa, o jovem realizador começa a filmar uma longa-metragem chamada Em Obsessão. Contudo, o actor principal do filme acabaria por morrer num acidente de carro. Este filme vai repescar os incidentes das filmagens da década de 80. As tentativas de superar as contrariedades e a ingenuidade do cineasta principiante são temas abordados pelo realizador.
Este filme é a sétima longa-metragem de Rui Goulart, tendo sido filmado em Portugal, Espanha, França e Itália. Do elenco fazem parte a actriz Marisa Paredes, que participou nos filmes de Pedro Almodóvar "Tudo sobre a minha mãe" e "Fala com ela", João D’Ávila, Adelaide João, o Mestre António Vitorino de Almeida, entre outros.
Marcarão presença em Felgueiras, o realizador Rui Goulart e os actores Alfredo Fragateiro e Adelaide João.

terça-feira, março 10, 2009

"Sócrates 2009" | Constança Cunha e Sá no CM

Constança Cunha e Sá,
editora de Política da TVI,
no Correio da Manhã, de hoje

O lema "Sócrates 2009" é a certidão de óbito do PS, emitida, para cúmulo, nas vésperas de um ciclo eleitoral.
Num gesto de altruísmo e de rara dedicação, o PS decidiu transformar as próximas eleições num verdadeiro plebiscito ao seu líder incontestado. O lema escolhido – Sócrates 2009 – não só revela uma concepção original do sistema democrático, assente no culto da personalidade e na natureza insubstituível do homem providencial, como reduz o partido à sua própria (e visível) insignificância.
O arranque oficial da campanha socialista, que sintomaticamente se realizou em Espinho, foi um momento único para se perceber os ingredientes desta estratégia. O discurso do eng. Sócrates e os encómios dos seus acólitos não deixaram margem para grandes dúvidas. Quem concorre às próximas eleições não é o partido, nem mesmo o seu secretário-geral: é um homem excepcional que se candidata ao cargo de primeiro-ministro para ver sufragada a sua obra à frente do Governo e que se apresenta a votos para que o povo – "que é quem mais ordena" – lhe faça o especial favor de dizimar as "forças ocultas" que estão por detrás da "campanha negra" que se abateu sobre a sua impoluta pessoa.
Esta premeditada confusão entre o plano judicial e o plano político, através da qual se pretende que a investigação criminal passe a ser sufragada pelo voto popular, tem os seus antecedentes históricos: ao usá-la, o eng. Sócrates junta-se a um colorido grupinho de autarcas que tem como expoentes máximos o sr. Isaltino Morais, o major Valentim Loureiro e a sra. Fátima Felgueiras, cuja recandidatura o PS não apoiou por motivos que, agora, parecem incompreensíveis. Se a ideia é, como diz o eng. Sócrates, introduzir uma certa "decência" na política, não se pode dizer que este seja o caminho mais indicado.
Infelizmente, foi o caminho escolhido pelo PS que, depois de se ter insurgido, desde sempre, contra qualquer escândalo alheio, surge agora como defensor oficial de um alvo do Ministério Público e de dedo em riste contra os jornalistas que se atrevem a dar conta das diligências judiciais em curso. Seria de esperar que este PS, tão solícito na denúncia de "campanhas negras" e "assassinatos de carácter" contra o seu martirizado líder, se aplicasse, com igual zelo e dedicação, na defesa de outras vítimas que por aí andam, perseguidas pela Justiça e nas primeiras páginas dos jornais.
Mas, como se tem visto, o eng. Sócrates goza de um estatuto especial: com o partido a seus pés, conseguiu ligar irremediavelmente o destino do PS ao seu próprio destino. O lema "Sócrates 2009" não é mais do que a certidão de óbito do PS, emitida, para cúmulo, nas vésperas de um ciclo eleitoral.

segunda-feira, março 09, 2009

Amarante comemora 100 anos da chegada do comboio | 21 de Março


A Câmara Municipal de Amarante comemora, no próximo dia 21 de Março, o centenário da chegada do comboio a Amarante, com um programa que inclui, às 15:30, a abertura de uma exposição de fotografia e o descerramento de uma placa alusiva à efeméride, na estação de Amarante; a abertura, na Biblioteca Municipal Albano Sardoeira, da exposição “No Centenário da Chegada do Comboio a Amarante”, a apresentação de uma colecção de postais de António Teixeira Carneiro, seguida da Conferência “O comboio como factor de desenvolvimento económico e social”. As celebrações encerrarão à noite, decorrendo, na Casa das Artes de Amarante, a partir das 21:30, o concerto “Amar Guitarra".

A chegada do comboio, segundo o jornal “Flor do Tâmega” de 28 de Março de 1909

“Às 11:15 chegou o comboyo à estação, com as bandas de Amarante e Villa Boa tocando o hymno nacional; engenheiros, governador civil, jornalistas e muitas outras pessoas do Porto, Regoa, Marco de Canavezes, Barcellos, Penafiel, etc. Todos os logares vinham tomados, até os wagons de carga replectos de gente.
“(...) Na estação aguardava a chegada a philarmonica de Figueiró, que rompeu também com o hymno da carta, ao som dos vivas e do continuo estrallejar de dynamite. O comboyo era composto de 11 vehiculos: carruagens de 1ª e 3ª classe, salão, fourgon e 2 wagons de carga, rebocados pela locomotiva Compound 410, que vinha adornada com um tropheu de bandeiras, encimando um retrato a crayon do eminente orador Sr. Conselheiro António Cândido. Bordavam o retrato camélias. Em baixo, um ramo das mesmas flores, unidas por 2 largas fitas com as cores nacionais. Em três escudos – Salvé A. Cândido – viva Amarante – 1909, 21-3”.

O relato é do jornal “Flor do Tâmega” de 28 de Março de 1909 e dava conta do que foi a chegada do primeiro comboio a Amarante, sete dias antes, a 21. Estavam concluídos os primeiros 13 quilómetros de via da Linha do Tâmega, entre a Livração – na Linha do Douro – e Amarante, que agora iria progredir para nordeste. Faltavam mais 39 quilómetros de linha até ao Arco de Baúlhe, onde o comboio só chegaria em 1949, portanto 40 anos após Amarante.
Com localizações intermédias na Linha do Tâmega, Celorico de Basto viu chegar o primeiro comboio em 1926 e Mondim de Basto em 1932. A, inicialmente prevista, extensão da linha até Fafe e a sua ligação com o sistema suburbano da cidade do Porto, nunca viriam a concretizar-se. No total seriam construídos 52 quilómetros de via ziguezagueante, para contornar os acidentes do terreno, com apenas três estruturas de engenharia civil de razoável dimensão: dois viadutos com pilares de aço, imediatamente antes da estação de Amarante (no sentido ascendente), construídos, ambos, em 1908 e um grande viaduto de cantaria depois da estação de Chapa.
Até 1949, o material circulante na Linha do Tâmega tinha tracção a vapor, ano a partir do qual foram introduzidas as automotoras a diesel. Uma vez por semana, porém, a tracção a vapor continuou a ser utilizada até Arco de Baúlhe, num comboio misto que pretendia proporcionar maior capacidade de transporte. O mesmo acontecia em dias de festa (de S. Gonçalo, por exemplo), quando aumentava significativamente o número de passageiros.
Pelo menos em mais duas ocasiões foi usada na linha tracção a vapor: em 1984, com uma composição de uma locomotiva e quatro carruagens (este conjunto constituía o comboio histórico do museu do Arco de Baúlhe que o ex-Presidente da República, Mário Soares, viria a utilizar durante uma “Presidência Aberta” em Guimarães); e em 1988 com uma locomotiva e duas carruagens.
O ano de 1988 marcaria, de resto, o princípio do fim da Linha do Tâmega. De facto, alegando “uma extrema exiguidade de procura, tráfego reduzido e sobre-dimensionamento da oferta”, a CP viria, a partir de 28 de Maio daquele ano, a reduzir de cinco para três os comboios de Amarante para Arco de Baúlhe. E, menos de dois anos depois, implacavelmente a 1 de Janeiro de 1990, a cessar completamente a circulação entre aquelas duas estações, por entre muitos protestos.
Desde então, foram muitas as tentativas para reabrir a Linha do Tâmega, para fins turísticos, até ao Arco de Baúlhe, mas todos os projectos ficaram pelo caminho. Actualmente, a via está a ser transformada em ecopista entre as estações de Amarante e da Chapa.

sábado, março 07, 2009

"Ponha aqui o seu pezinho..." - Padre Mário de Oliveira

Recebemos do P.e Mário de Oliveira a correspondência abaixo transcrita, em que nos aconselha a consultarmos um rol de vídeos, no youtube, gravados por si, muito recentemente. Colocámos dois deles neste blogue.
Desta vez, o P.e Mário, com a sua imaginação sempre a funcionar, até nos vem surpreender, ao revelar mais um dos seus talentos: temos cantor!

Olá, Companheiras /Companheiros
Volto a aparecer. Para lá do meu afecto e da minha paz,
trago-lhes também o convite a deixarem-se surpreender com o que vão encontrar no youtube, se abrirem o endereço
http://www.youtube.com/
e, no pequeno rectângulo vazio que antecede a palavra PESQUISAR, escreverem
Padre Mario da Lixa
e depois clicarem sobre a palavra PESQUISAR.
Espero que gostem e passem a notícia a todas as pessoas das vossas relações.
Convosco, sempre
Mário

Grão de Trigo

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quarta-feira, março 04, 2009

Mensagem de Duarte de Bragança

O Diário de Felgueiras recebeu, hoje, do Instituto da Democracia Portuguesa (IDP), para publicação neste blogue, a mensagem de Duarte de Bragança, chefe da Casa Real Portuguesa e presidente de honra do referido instituto. A dita mensagem foi proferida ontem, em Lisboa, por ocasião do encerramento do I Congresso Marquês Sá da Bandeira.
É público e notório que o Diário de Felgueiras, sendo um espaço de liberdade, é um blogue politicamente independente em relação aos partidos e a movimentos políticos, não sendo, porém, neutro em relação à República.
No entanto, e sem estarmos a justificar-nos pelo acto da publicação da mensagem enviada, achamos oportunas algumas das passagens do texto, principalmente no que refere ao desaproveitamento das potencialidades da costa atlântica portuguesa.
PERGUNTAS À DEMOCRACIA
Tem vindo a crescer em Portugal um sentimento de insegurança quanto ao futuro, sentimento avolumado por uma crise internacional, económica e social, de proporções ainda não experimentadas pela maioria dos portugueses. São momentos em que importa colocar perguntas à Democracia que desejamos.
Admitindo-se que a situação concreta é grave, torna-se necessário encará-la de frente, antevendo todos os aspectos em que os portugueses experimentam dificuldades.
Os tempos de crise vão-nos trazer privações mas também vêm exigir reflexão. Este é o momento de olharmos para o que somos. Para este país tão desaproveitado. Para a sua costa atlântica com Portos tão ameaçados, para uma fronteira tão vulnerabilizada, para um património cultural tão desaproveitado.
Temos de perguntar até onde deixaremos continuar o desordenamento do território, que levou a população a concentrar-se numa estreita faixa do litoral, ocupando as melhores terras agrícolas do país e esquecendo o interior, reduzido a 10% do PIB.
Temos de perguntar à economia portuguesa por que razão os bens de produção são despromovidos perante os “serviços”, o imobiliário, e ultimamente, os serviços financeiros. O planeamento das próprias vias de comunicação se subjugou a essa visão.
Temos de perguntar até onde o regime democrático aguenta, semana após semana, a perda de confiança nas instituições políticas e uma atitude de “caudilhização” do discurso.
Temos de perguntar até onde continuaremos a atribuir recursos financeiros a grandes naufrágios empresariais, ou a aeroportos e barragens faraónicas que são erros económicos.
Temos de perguntar até onde o sistema judicial aguenta, sem desguarnecer os direitos dos portugueses, a perda de eficácia e a morosidade crescente dos processos.
Temos de perguntar se não deveríamos estabelecer um serviço de voluntariado cívico em que os desempregados possam prestar um contributo à comunidade.
Temos de perguntar até onde as polémicas fracturantes que só interessam a uma ínfima minoria política, não ofendem a imensa maioria das famílias, preocupadas com a estabilidade pessoal e económica.
Temos de perguntar como vamos aproveitar o ciclo eleitoral que se avizinha, a começar pelas eleições europeias, onde será desejável que apareçam independentes que lutem pelos interesses nacionais.
Temos de perguntar se nas relações lusófonas, estamos a dar atenção suficiente às relações especiais que sempre existiram entre Portugal e o Brasil.
Para ultrapassarmos as dificuldades, precisamos de todos os nossos recursos humanos em direcção a uma economia mais “real”, mais sustentada, mais equitativa, uma economia em que respirem todas as regiões a um mesmo “pulmão”.
Apesar de tudo, o nosso sector bancário fugiu das estrondosas irresponsabilidades dos congéneres mundiais. Saibam os Governos regulamentar os apoios para as empresas grandes, médias ou pequenas mas que sejam produtivas.
Em regime democrático, exige-se processos e discursos ditados pelo imperativo de responsabilidade. A equidade e integridade territorial só poderão ser obtidas com a participação de todos, e com sacrifícios para todos.
Estamos confiantes que somos capazes de fazer das nossas fragilidades as nossas maiores vantagens. Onde outros tiveram soluções muito rígidas que falharam, nós venceremos promovendo os portugueses que lutam por um país de imensas vantagens competitivas.
Mostremos como somos um grande País, uma Pátria em que todos cabem porque acreditam na Democracia. Portugal precisa de mostrar o seu projecto para o século XXI. Pela minha parte, e pela Casa Real que chefio, estou, como sempre, disponível para colaborar.

Correio dos leitores

O sismo de 28 de Fevereiro de 1969

Congratulo-me com o facto de o Diário de Felgueiras ter registado a passagem dos 40 anos após o grande sismo de 69 em Portugal, ao contrário dos órgãos de comunicação social, que deixaram passar em claro. Acho que devia ser dada mais atenção por parte dos jornais e das TV’s sobre a prevenção que existe em Portugal em relação a esta matéria, para defesa das populações.
Foi, realmente, um sismo assustador, o daquela madrugada. Em 69, eu já trabalhava, numa fábrica têxtil. Tinha apenas 17 anos de idade. Ouviu-se um barulho horrível, que, de início, mais parecia uma trovoada e que me fez acordar estremunhado. Depois, já um pouco desperto, pensei na viagem velocipédica matinal que me esperava, de casa até à fábrica, e que iria ser difícil com as condições atmosféricas que eu pensava serem de mau tempo. Mas não… Só depois de totalmente acordado é que percebi que o caso era grave. Aquele barulho estranho! Aquela sonoridade “fúnebre”, vinda do interior da Terra, era acompanhado pelo tilintar dos copos no interior dos armários da casa dos meus pais, onde eu morava, ainda solteiro. As paredes de alvenaria irregular completavam o ambiente de terror com o ruído estranho que produziam. Perante tão estranho acontecimento, à pergunta
“o que é isto?”, o meu pai, bom patriarca da família, respondeu calmamente: “Isto passa!”. E passou! Felizmente, sem consequências.
Ainda hoje tenho fixada na memória a manchete de um diário do Porto (provavelmente, o Jornal de Notícias), no dia seguinte. Esse jornal referia a toda a largura da primeira página:
“Depois de uma noite de terror, o balanço do sismo”.

Manuel Sousa - Penacova, Felgueiras