segunda-feira, dezembro 29, 2008

Maior central fotovoltaica do mundo em Portugal, Amareleja (Moura)

Com pedido de publicação, recebemos da empresa espanhola "ACCIONA Energía" o seguinte comunicado de imprensa, que, dado tratar assunto de alguma novidade para Portugal, transcrevemos na íntegra.
ACCIONA Energía arranca com a maior central fotovoltaica
do mundo em Portugal, com um investimento
total de 261 milhões de euros.
• Localizada na Amareleja, concelho de Moura, tem 46 MWp de potência e produzirá anualmente 93 milhões de kWh, o equivalente ao consumo eléctrico de mais de 30 mil lares portugueses.
• Ocupa uma área de 250 hectares e é composta por 2.520 seguidores solares, com 262.080 módulos fotovoltaicos.
• A Central, detida a 100% pela ACCIONA, reforça a liderança mundial da empresa no campo das tecnologias energéticas solares.
29 de Dezembro de 2008. A ACCIONA Energía colocou em funcionamento o parque solar fotovoltaico da Amareleja (Moura), o maior em todo o mundo com este tipo de tecnologia, após um tempo recorde de construção de 13 meses. Com 46 MWp de potência, representa um investimento de 261 milhões de euros. A instalação produzirá 93 milhões de kWh, energia suficiente para suprir o consumo de mais de 30 mil lares portugueses, e evitará a emissão de 89.383 toneladas anuais de CO2.
Com este projecto, a ACCIONA – Companhia de referência mundial em energias renováveis – reforça a sua liderança internacional em energia solar. Em Espanha, a empresa tem já instalados 68 MW fotovoltaicos e 100 MW termosolares em construção, e é ainda proprietária, nos EUA, da maior estação solar termoeléctrica (64 MW) instalada nos últimos 17 anos.
250 hectares de área
A central solar fotovoltaica de Amareleja pertence na totalidade à ACCIONA, que adquiriu em Janeiro de 2007 as acções da sociedade proprietária dos direitos de instalação (Amper Solar) aos seus accionistas de então: Câmara Municipal de Moura (88%), Comoiprel (2%) e à consultora Renatura Networks.Com (10%).
A central ocupa uma área de 250 hectares na freguesia de Amareleja, concelho de Moura, e é constituída por 2.520 seguidores solares “Buskil”, de tecnologia ACCIONA, cada um com 140 m2 de superfície (13 metros de comprimento por 10,8 metros de altura). Cada seguidor solar alberga 104 módulos de silício policristalino, de 170 e 180 Wp de potência, o que significa um total de 262.080 módulos fotovoltaicos no conjunto da central solar. Os seguidores desenvolverão um movimento azimutal de 240º de volta seguindo a parábola do sol, com uma inclinação fixa de 45º. Os seguidores solares azimutais são dispositivos mecânicos que orientam os painéis solares perpendiculares ao sol, desde a alvorada, a leste, até ao poente, a oeste.
Os primeiros 3 MW foram instalados em finais de 2007, com ligação provisória em Março de 2008. Durante o ano de 2008 foi feita a instalação do restante campo solar e, paralelamente, a construção da linha de evacuação de electricidade, concluída a semana passada com a ligação da central à rede.
Construída pela ACCIONA Solar
A ACCIONA Solar – filial da ACCIONA Energía - foi a empresa responsável pela construção da central, onde trabalharam em média 150 pessoas, chegando-se a um máximo de cerca de 500 trabalhadores em determinados períodos temporais.
A ACCIONA Solar – empresa líder em instalações solares - já instalou 68 MWp em Espanha, sobretudo nas chamadas “hortas solares”, conceito criado e registado pela empresa. Mais de 3.500 proprietários investiram já cerca de 456 milhões de euros neste tipo de instalações fotovoltaicas.
Cumprimento de objectivos em Portugal
A central solar fotovoltaica de Amareleja (Moura) contribuirá para o cumprimento dos objectivos definidos pelo Programa E4 de Eficiência Energética e Energias Renováveis aprovado pelo Governo português, bem como para cumprir com os compromissos assumidos por Portugal quanto à redução da emissão de gases com efeito estufa. No que se refere à questão fotovoltaica, o objectivo português é de 150 MW, contribuindo a Central de Moura com 30% deste valor.
A instalação alentejana criará ainda riqueza e postos de trabalho a nível local e será uma referência no desenvolvimento da energia solar.
ACCIONA, líder em energias renováveis, infra-estruturas e serviços.
ACCIONA Energia é líder mundial no sector das energias renováveis. No respeitante a energia eólica, implementou até 30 de Setembro de 2008 um total de 5.577 MW em 200 parques localizados em 14 países, sendo 4.105 MW em parques propriedade da empresa. Para além da actividade em energia solar, o Grupo conta também com três centrais de biomassa – uma delas de 25 MW por combustão de palha – e 59 MW em mini-centrais hidroeléctricas. Produz geradores com tecnologia própria e elabora biodiesel de qualidade homologada.
Pertence ao Grupo ACCIONA, uma das principais companhias espanholas, com actividade em mais de 30 países nos cinco continentes, na área das infra-estruturas, energia, recursos hidráulicos e serviços, com um volume de negócios de 9 353 milhões de euros nos nove primeiros meses de 2008. A ACCIONA tem mais de 35 mil colaboradores e está cotada no índice espanhol IBEX-35.

quinta-feira, dezembro 25, 2008

Faleceu Harold Pinter - prémio Nobel da Literatura em 2005

Harold Pinter, escritor inglês

A morte chegou ao mundo das Letras neste Natal. Harold Pinter, prémio Nobel da Literatura em 2005, e considerado um dos expoentes máximos da dramaturgia inglesa, sucumbiu, hoje, após prolongada luta contra um cancro no esófago. Aquando da sessão solene da entrega do prémio, o discurso do escritor foi interrompido por sucessivas "falhas de som"(!)
Filho de um alfaiate judeu, Pinter era conhecido como defensor dos direitos humanos. Como tal, opôs-se à guerra do Iraque, que o levou a criticar duramente o então primeiro-ministro britânico, Tony Blair, e o presidente americano, George W.Bush, no discurso de aceitação do Nobel.
Nos anos 80, Harold Pinter fez parte de uma delegação representativa da Nicarágua, à altura do então governo sandinista, nas negociações com os EUA, então governados por Ronald Reagan, que ameaçava invadir aquele país e patrocinava os “Contra” através de um esquema de financiamento que passava pela venda de armas ao Irão cujo dinheiro era revertido para os guerrilheiros anti-sandinistas, num escândalo que ficou conhecido por “Irão-Contras” Nesse importante discurso, Harold Pinter testemunha uma conversa entre um padre da Nicarágua e o diploma norte-americano. O relato do sacerdote é arrepiante: “Dirijo uma paróquia no norte da Nicarágua. Os meus paroquianos construíram uma escola, um centro de saúde, um centro cultural. Vivíamos em paz. Há alguns meses uma força dos Contra atacou a paróquia. Destruíram tudo: a escola, o centro de saúde, o centro cultural. Violaram as enfermeiras e as professoras, assassinaram os médicos, da forma mais brutal. Comportaram-se como selvagens. Por favor, peça que o governo dos EUA retire o seu apoio a esta revoltante actividade terrorista”.
Perceba-se bem que Harold Pinter, no seu notável humanismo, não defendia regimes; defendia os direitos humanos! A melhor homenagem que lhe podemos fazer é saborear o discurso de aceitação do prémio Nobel, em 2005. Um texto histórico, sem dúvida. Embora longo, não cansa lê-lo. Deve ser lido, aliás. Não o percam. Ei-lo:

Em 1958, escrevi o seguinte:
"Não há grandes diferenças entre a realidade e a ficção, nem entre o verdadeiro e o falso. Uma coisa não é necessariamente ou verdadeira ou falsa; pode ser ao mesmo tempo verdade e mentira".
Creio que estas afirmações ainda fazem sentido e ainda se aplicam à exploração da realidade através da arte. Assim, como escritor, mantenho-as, mas como cidadão não posso; como cidadão tenho de perguntar: Que é verdade? Que é mentira?
A verdade na arte dramática é sempre esquiva. Nunca a encontramos completamente, mas a busca por ela é compulsiva. A busca é claramente o que motiva o empenho. A busca é a tua tarefa. Muitas vezes, tropeçamos com a verdade na escuridão, chocando com ela ou vislumbrando uma imagem ou uma forma que parece corresponder à verdade, frequentemente sem nos darmos conta disso. Mas a verdade real é que na arte dramática não há tal coisa como uma verdade única. Há muitas. Estas verdades desafiam-se mutuamente, recusam-se mutuamente, reflectem-se mutuamente, ignoram-se mutuamente, provocam-se mutuamente, são cegas umas em relação às outras. Às vezes, sentimos que temos a verdade de um momento na mão, então escapa-se entre os nossos dedos e perde-se.
Perguntaram-me com frequência como nascem as minhas peças. Não sei dizê-lo. Como também não posso resumir as minhas peças, a não ser para dizer que foi isto o que aconteceu. Isso é o que elas dizem. Isso é o que elas fizeram.
A maior parte das peças são geradas por uma frase, uma palavra ou uma imagem. A palavra é com frequência rapidamente seguida pela imagem. Darei dois exemplos de duas frases que apareceram na minha cabeça do nada, seguidas por uma imagem, seguidas por mim.
As peças são The homecoming e Old Times. A primeira frase de The Homecoming é "Que fizeste com a tesoura?" A primeira frase de Old Times é "Escuro".
Em ambos os casos, não tinha mais informação.
No primeiro caso alguém estava, obviamente, à procura de uma tesoura e perguntava pelo seu paradeiro a alguém de quem suspeitava que provavelmente a tinha roubado. Mas eu, de alguma maneira, sabia que à pessoa interrogada pouco lhe importava a tesoura ou, já agora, o interrogador.
“Escuro”, tomei como a descrição do cabelo de alguém, o cabelo de uma mulher, e era a resposta a uma pergunta. Em ambos os casos vi-me compelido a dedicar-me ao assunto. Isto ocorreu visualmente, numa muito lenta graduação, da sombra para a luz.
Sempre começo uma obra chamando aos personagens A, B e C.
Na peça que se tornou The Homecoming, vi um homem entrar numa sala austera e fazer a sua pergunta a um homem mais jovem sentado num sofá feio a ler um jornal de corridas de cavalos. De alguma forma suspeitava que A era um pai e que B era seu filho, mas não tinha provas. Isto foi, no entanto, confirmado pouco depois quando B (que depois seria Lenny) disse a A (que depois seria Max), "Pai, importas-te que mude de assunto? Quero perguntar-te uma coisa. O jantar que tivemos antes, como se chama? Como o chamas tu? Por que não compras um cão? És um cozinheiro de cães. A sério. Pensas que estás a cozinhar para cães". Assim, como B chama “Pai” a A, pareceu-me razoável assumir que eram pai e filho. E havia também claramente o cozinheiro e a sua comida não parecia ser muito valorizada. Queria isto dizer que não havia uma mãe? Não sabia. Mas, como disse a mim mesmo então, os nossos princípios nunca sabem os nossos fins.
“Escuro”. Uma grande janela. Um céu ao entardecer. Um homem, A (que depois seria Deeley) e uma mulher, B (que depois seria Kate) sentados com bebidas. "Gorda ou magra", pergunta o homem. De quem falam? Mas então vejo, de pé junto à janela, uma mulher, C (que depois seria Anna), alumiada por uma luz diferente, de costas para eles, com o cabelo escuro.
É um momento estranho, o momento de criar personagens que até esse momento não tinham tido existência. O que se segue é irregular, vacilante, mesmo alucinatório, ainda que por vezes possa ser uma avalanche imparável. A posição do autor é esquisita. Em certo sentido, não é bem-vindo pelas personagens. As personagens resistem-lhe, não é fácil conviver com elas, são impossíveis de definir. Certamente não podemos dar-lhes ordens. Até certo ponto, jogamos um jogo interminável com elas, ao gato e ao rato, ao adivinha quem é [blind man’s buff], às escondidas. Mas finalmente descobrimos que temos pessoas de carne e osso nas nossas mãos, pessoas com uma vontade e com uma sensibilidade individual próprias, feitas de partes componentes que somos incapazes de mudar, manipular ou distorcer.
Assim, a linguagem na arte continua a ser uma ambiciosa transação, umas areias movediças, um trampolim, uma poça gelada que pode ceder sob os pés, os do autor, em qualquer momento.
Mas, como disse, a busca da verdade nunca pode parar. Não pode ser suspensa, não pode ser adiada. Tem que ser enfrentada, ali mesmo, no acto.
O teatro político apresenta uma variedade totalmente diferente de problemas. Há que evitar os sermões a todo o custo. A objectividade é essencial. Deve-se deixar que as personagens respirem por sua própria conta. O autor não pode confiná-las nem constringi-las para satisfazer o seu próprio gosto, disposição ou preconceitos. Tem de estar preparado para se aproximar delas de uma variedade de ângulos, de um sortido amplo e desinibido de perspectivas, talvez, ocasionalmente, tomá-las de surpresa, mas apesar de tudo, dando-lhes a liberdade para ir aonde desejem. Isto nem sempre funciona. E a sátira política, evidentemente, não adere a nenhum destes preceitos, na verdade, faz precisamente o contrário, o que é a sua autêntica função.
Na minha peça The Birthday Party creio que permito o funcionamento de um amplo leque de opções numa densa floresta de possibilidades antes de finalmente me concentrar num acto de subjugação.
Mountain Language não aspira a essa amplitude de funcionamento. Permanece brutal, curta e feia. Mas os soldados na peça, sim, divertem-se com aquilo. Um por vezes esquece-se que os torturadores se aborrecem facilmente. Precisam de se rir de vez em quando para manter o ânimo. Isto foi, evidentemente, confirmado pelos acontecimentos em Abu Ghraib em Bagdade. Mountain language dura só 20 minutos, mas poderia continuar hora após hora, uma e outra e outra vez, o mesmo padrão repetido de novo e de novo, uma e outra vez, hora após hora.
Ashes to ashes, por outro lado, dá-me a impressão de ter lugar debaixo de água. Uma mulher que se afoga, a sua mão que emerge das ondas, que se afunda e desaparece, procurando outras, mas não encontrando ali ninguém, seja acima seja debaixo de água, encontrando unicamente sombras, reflexos, boiando; a mulher uma figura perdida numa paisagem de naufrágio, uma mulher incapaz de escapar do destino que parecia pertencer apenas a outros.
Mas, como eles morreram, ela também deve morrer.
"...a maioria dos políticos, segundo a evidência disponível,
não estão interessados na verdade mas no poder
e na manutenção desse poder. Para manter esse poder
é essencial que as pessoas permaneçam na ignorância..."
A linguagem política, tal como é usada pelos políticos, não se adentra em nenhum destes territórios dado que a maioria dos políticos, segundo a evidência disponível, não estão interessados na verdade mas no poder e na manutenção desse poder. Para manter esse poder é essencial que as pessoas permaneçam na ignorância, que vivam na ignorância da verdade, mesmo da verdade sobre as suas próprias vidas. O que nos rodeia é portanto um enorme entrelaçado de mentiras, das quais nos alimentamos.
Como cada indivíduo aqui sabe, a justificação para a invasão do Iraque era que Saddam Hussein possuía um perigosíssimo arsenal de armas de destruição em massa, algumas das quais podiam ser lançadas em 45 minutos, provocando uma apavorante devastação. Asseguraram-nos que isso era verdadeiro. Não era verdadeiro. Disseram-nos que o Iraque tinha uma relação com a Al Qaeda e que partilhava a responsabilidade pela atrocidade de 11 de Setembro de 2001 em Nova York. Asseguraram-nos que isto era verdadeiro. Não era verdadeiro. Disseram-nos que o Iraque ameaçava a segurança do mundo. Asseguraram-nos que era verdadeiro. Não era verdadeiro.
A verdade é algo totalmente diferente. A verdade tem a ver com a forma como os Estados Unidos entendem o seu papel no mundo e como decide encarná-lo.
Mas antes de voltar ao presente, gostaria de olhar o passado recente, refiro-me à política externa dos Estados Unidos desde o final da Segunda Guerra Mundial. Creio que é nossa obrigação submeter este período a pelo menos algum tipo de escrutínio, ainda que limitado, que é tudo o que o tempo nos permitirá aqui.
Todos sabem o que aconteceu na União Soviética e por toda a Europa de Leste durante o período do pós-guerra: a brutalidade sistemática, as múltiplas atrocidades, a implacável supressão do pensamento independente. Tudo isto foi amplamente documentado e verificado.
Mas a minha contenda aqui é que os crimes dos EUA no mesmo período só foram registrados de forma superficial, não digamos já documentados, ou admitidos, ou reconhecidos sequer como crimes. Creio que isto deve ser encarado e que a verdade [sobre este assunto] tem muito a ver com a situação em que se encontra o mundo actualmente. Embora limitadas, até certo ponto, pela existência da União Soviética, as acções dos Estados Unidos por todo o mundo deixaram claro que tinham concluído que tinham carta branca para fazer o que quisessem.
A invasão directa de um estado soberano nunca foi, na verdade, o método favorito dos Estados Unidos. Na maioria dos casos, preferiram o que descreveram como “conflito de baixa intensidade”. Conflito de baixa intensidade significa que milhares de pessoas morrem, mas mais lentamente do que se lançássemos uma bomba sobre eles de um só golpe. Significa que infectamos o coração do país, que estabelecemos um tumor maligno e observamos o desenvolvimento da gangrena. Quando o povo foi submetido – ou moído a paus – o que vem a ser o mesmo – e os nossos próprios amigos, os militares e as grandes corporações, se sentam confortavelmente no poder, vamos à frente da câmara e dizemos que a democracia triunfou. Isto foi um lugar comum na política externa dos Estados Unidos durante os anos a que me refiro.
A tragédia da Nicarágua foi um caso muito significativo. Escolhi apresentá-lo aqui como um exemplo potente de como os Estados Unidos vêem o seu papel no mundo, tanto então como agora.
Estive presente numa reunião na embaixada dos EUA em Londres no final dos anos oitenta.
O Congresso dos Estados Unidos estava prestes a decidir se dar mais dinheiro aos Contras para a sua campanha contra o Estado da Nicarágua. Eu era um membro de uma delegação que vinha falar em nome da Nicarágua, mas a pessoa mais importante nesta delegação era o Padre John Metcalf. O líder do grupo dos EUA era Raymond Seitz (então número dois do embaixador, mais tarde embaixador ele mesmo). O Padre Metcalf disse: "Senhor, dirijo uma paróquia no norte da Nicarágua. Os meus paroquianos construíram uma escola, um centro de saúde, um centro cultural. Vivíamos em paz. Há alguns meses uma força dos Contra atacou a paróquia. Destruíram tudo: a escola, o centro de saúde, o centro cultural. Violaram as enfermeiras e as professoras, assassinaram os médicos, da forma mais brutal. Comportaram-se como selvagens. Por favor, peça que o governo dos EUA retire o seu apoio a esta revoltante actividade terrorista".
Raymond Seitz tinha muito boa reputação como homem racional, responsável e altamente sofisticado. Era grandemente respeitado nos círculos diplomáticos. Escutou, fez uma pausa, e depois falou com alguma gravidade. "Pai", disse, "deixe-me dizer-lhe algo. Na guerra, as pessoas inocentes sofrem sempre". Houve um frio silêncio. Olhamos para ele. Ele não piscou.
As pessoas inocentes, de facto, sempre sofrem.
Finalmente, alguém disse: "Mas neste caso as “pessoas inocentes” foram vítimas de uma horrível atrocidade subvencionada pelo seu governo, uma entre muitas. Se o Congresso concede aos Contras mais dinheiro, mais atrocidades desta tipo terão lugar. Não é assim? Não é, portanto, o seu governo culpado de apoiar actos de assassinato e destruição contra os cidadãos de um estado soberano?"
Seitz manteve-se imperturbável. "Não estou de acordo que os factos, tal como foram apresentados, apoiem as suas afirmações", disse. Enquanto abandonávamos a embaixada, um assessor estado-unidense disse-me que apreciava as minhas peças. Não respondi.
Devo recordar-lhes que o então presidente, Reagan, fez a seguinte declaração: "Os Contras são o equivalente moral dos nossos Pais Fundadores".
Os Estados Unidos apoiaram a brutal ditadura de Somoza na Nicarágua durante 40 anos. O povo nicaraguano, liderado pelos sandinistas, derrocou este regime em 1979, uma impressionante revolução popular.
Os sandinistas não eram perfeitos. Tinham a sua quota parte de arrogância e a sua filosofia política continha um certo número de elementos contraditórios. Mas eram inteligentes, racionais e civilizados. Propuseram-se estabelecer uma sociedade estável, decente e plural. A pena de morta foi abolida. Centenas de milhares de camponeses acometidos pela pobreza foram resgatados dos mortos. Mais de 100.000 famílias receberam títulos de propriedade sobre terras. Foram construídas duas mil escolas. Uma notável campanha educativa reduziu o analfabetismo no país a menos de um sétimo. Foram estabelecidos uma educação e um serviço de saúde gratuitos. A mortalidade infantil foi reduziu em um terço. A poliomielite foi erradicada.
Os Estados Unidos denunciaram estas realizações como subversão marxista-leninista. Do ponto de vista do governo dos EUA, estava-se a estabelecer um exemplo perigoso. Se fosse permitido à Nicarágua estabelecer normas básicas de justiça social e económica, se lhe fosse permitido subir os níveis de saúde e educação e alcançar a unidade social e o auto-respeito nacional, os países vizinhos poriam as mesmas questões e fariam o mesmo. Havia evidentemente nessa época uma feroz resistência ao status quo em El Salvador.
Falei anteriormente sobre “um entrelaçado de mentiras” que nos rodeia. O presidente Reagan descrevia habitualmente a Nicarágua como um “calaboiço totalitário”. Isto foi tomado de forma geral pelos meios de comunicação, e certamente pelo governo britânico, como um comentário correcto e justo. Mas, na verdade, não havia registro de esquadrões da morte sob o governo sandinista. Não havia registro de torturas. Não havia registro de uma brutalidade sistemática ou oficial por parte dos militares. Nenhum sacerdote foi jamais assassinado na Nicarágua. Havia, na veradde, três sacerdotes no governo, dois jesuítas e um missionário, Maryknoll. Os calaboiços totalitários estavam na realidade ao lado, em El Salvador e na Guatemala. Os Estados Unidos tinham feito cair o governo democraticamente eleito da Guatemala em 1954 e estima-se que mais de 200.000 pessoas tinham sido vítimas das sucessivas ditaduras militares.
Seis dos mais eminentes jesuítas do mundo foram brutalmente assassinados na Universidade da América Central, em San Salvador, em 1989, por um batalhão do regimento Alcatl treinado em Fort Benning, Geórgia, EUA. Esse homem extremamente corajoso, o Arcebispo Romero, foi assassinado enquanto dizia a missa. Estima-se que morreram 75.000 pessoas. Por que foram assassinadas? Foram assassinadas porque acreditavam que uma vida melhor era possível e que devia ser realizada. Essa crença qualificava-os imediatamente como comunistas. Morreram porque se atreveram a questionar o status quo, a interminável situação de pobreza, a doença, a degradação e a opressão que tinham recebido como herança.
"Digo-vos que os Estados Unidos são, sem dúvida,
o maior espectáculo ambulante"
Os Estados Unidos finalmente fizeram cair o governo sandinista. Levou alguns anos e uma resistência considerável, mas uma perseguição económica implacável e 30.000 mortos finalmente minaram o ânimo do povo nicaraguano. Estavam exaustos e acometidos pela pobreza uma vez mais. Os casinos voltaram ao país. A saúde e a educação gratuitas acabaram. As grandes empresas voltaram para valer. A “democracia” tinha triunfado.
Mas esta “política” não estava, de modo nenhum, restrita à América Central. Foi conduzida por todo o mundo. Era interminável. E é como se nunca se tivesse passado.
Os Estados Unidos apoiaram e em muitos casos engendraram cada ditadura militar de direita no mundo depois do final da Segunda Guerra Mundial. Refiro-me à Indonésia, Grécia, Uruguai, Brasil, Paraguai, Haiti, Turquia, Filipinas, Guatemala, El Salvador, e, claro, Chile. O horror que os Estados Unidos infligiram ao Chile em 1973 não poderá ser nunca purgado nem esquecido.
Centenas de milhares de mortes tiveram lugar em todos estes países. Tiveram lugar? E são elas em todos os casos atribuíveis à política externa dos EUA? A resposta é sim, tiveram lugar e são atribuíveis à política externa dos EUA. Mas vocês não o saberiam.
Nunca aconteceu. Nada alguma vez aconteceu. Mesmo enquanto acontecia não estava a acontecer. Não importava. Não tinha interesse. Os crimes dos Estados Unidos têm sido sistemáticos, constantes, imorais, cruéis, mas muito poucas pessoas falaram efectivamente deles. É preciso reconhecer isto aos Estados Unidos. Exerceram uma manipulação bastante clínica do poder em todo o mundo enquanto se disfarçavam como uma força ao serviço do bem universal. É um exercício de hipnose brilhante, até espirituoso, altamente bem sucedido.
Digo-vos que os Estados Unidos são, sem dúvida, o maior espectáculo ambulante. Por brutais, indiferentes, desdenhosos e implacáveis que sejam, são também muito inteligentes. Como vendedores não têm rival, e a mercadoria que melhor vendem é o amor próprio. Trata-se de um vencedor. Escutem todos os presidentes dos Estados Unidos na televisão dizer as palavras, “o povo americano”, como na frase “digo ao povo americano que é hora de rezar e defender os direitos do povo americano e peço ao povo americano que confie no seu presidente na acção que vai empreender em benefício do povo americano”.
É um estratagema brilhante. A linguagem é efectivamente utilizada para manter o pensamento descansado. As palavras “o povo americano” produzem uma almofada de tranquilidade verdadeiramente voluptuosa. Não precisamos de pensar. Simplesmente recostemo-nos na almofada. A almofada pode estar a sufocar a nossa inteligência e as nossas capacidades críticas mas é muito confortável. Isto não se aplica, evidentemente, aos 40 milhões de pessoas que vivem abaixo da linha de pobreza e aos 2 milhões de homens e mulheres prisioneiros no vasto gulag de prisões, que se estende ao longo dos Estados Unidos.
Os Estados Unidos já não se incomodam com os conflitos de baixa intensidade. Não vêem nenhum interesse em ser reticente ou dissimulado. Põem as suas cartas na mesa sem medo nem favor. Simplesmente está-se marimbando para as Nações Unidas, para a lei internacional ou a discordância crítica, que encara como impotente e irrelevante. Também tem o seu próprio cãozinho que ladra seguindo atrás pela trela, a patética e indolente Grã-Bretanha.
O que aconteceu à nossa sensibilidade moral? Chegamos a ter alguma? O que significam estas palavras? Será que se referem a um termo muito raramente utilizado nestes dias – consciência? Uma consciência que tem a ver não só com os nossos próprios actos, mas também com a nossa responsabilidade partilhada nos actos dos outros? Está tudo isto morto? Olhem para a Baía de Guantánamo. Centenas de pessoas detidas sem acusação durante três anos, sem representação legal ou o devido processo, tecnicamente detidos para sempre. Esta estrutura totalmente ilegítima é mantida em desafio à Convenção de Genebra. Não só é tolerada, mas mal é considerada pelo que se chama a “comunidade internacional”. Este ultraje criminoso está a ser cometido por um país, que se declara a si mesmo como “o líder do mundo livre”. Será que pensamos nos habitantes da Baía de Guantánamo? O que dizem os meios de comunicação sobre eles? Aparecem ocasionalmente – uma pequena menção na página seis. Eles foram consignados a uma terra de ninguém da qual, na verdade, podem nunca mais voltar. No momento, muitos estão em greve de fome, a ser alimentados à força, incluídos os residentes britânicos. Não há subtilezas nestes procedimentos de alimentação. Nem sedativos nem anestésicos. Só um tubo inserido no teu nariz e dentro da tua garganta. Tu vomitas sangue. Isto é tortura. Que disse o secretário britânico dos Negócios Estrangeiros sobre isto? Nada. Que disse o primeiro-ministro britânico sobre isto? Nada. Por que não? Porque os Estados Unidos disseram: criticar a nossa conduta na Baía de Guantánamo constitui um acto pouco amistoso. Ou estais connosco ou contra nós. Assim, Blair cala-se.
A invasão de Iraque foi um acto bandido, um acto de evidente terrorismo de Estado, demonstrando um desprezo absoluto pelo conceito de lei internacional. A invasão foi uma acção militar arbitrária baseada numa série de mentiras atrás de mentiras e numa grosseira manipulação dos meios de comunicação e, portanto, do público; um acto visando consolidar o controle militar e económico dos Estados Unidos sobre o Médio Oriente disfarçado – como último recurso –, tendo todas as outras justificações caído por si mesmas – de libertação. Uma formidável afirmação de força militar responsável pela morte e mutilação de milhares e milhares de pessoas inocentes.
Levámos tortura, bombas de fragmentação, urânio empobrecido, inumeráveis actos de assassinato aleatório, miséria, degradação e morte ao povo iraquiano e chamamos a isso “levar a liberdade e a democracia ao Médio Oriente”.
Quantas pessoas é preciso matar antes de se estar qualificado para ser descrito como um assassino em massa e um criminoso de guerra? Cem mil? Mais do que suficiente, pensaria eu. Por isso, é justo que Bush e Blair sejam levados perante o Tribunal Penal Internacional de Justiça. Mas Bush foi esperto. Não ratificou o Tribunal Penal Internacional de Justiça. Por isso, se algum soldado ou, já agora, político americano se achar no banco dos réus, Bush avisou que enviará os marines. Mas Tony Blair ratificou o Tribunal e está, portanto, disponível para a acusação. Podemos proporcionar ao Tribunal o seu endereço se estiver interessado. É o número 10 de Downing Street, Londres.
A morte neste contexto é irrelevante. Ambos, Bush e Blair, colocam a morte bem longe, nas contas atrasadas. Pelo menos 100.000 iraquianos foram mortos pelas bombas e mísseis americanos antes de a insurgência iraquiana ter começado. Estas pessoas não têm importância. As suas mortes não existem. São vazios. Nem sequer estão registradas como estando mortas. "Não fazemos contagem de corpos", disse o general americano Tommy Franks.
No início da invasão foi publicada na primeira página dos jornais britânicos uma fotografia de Tony Blair beijando a bochecha de um rapazinho iraquiano. "Um criança agradecida", dizia a legenda. Uns dias depois apareceu uma história com uma fotografia, numa página interior, de outro rapaz de quatro anos sem braços. A sua família tinha sido explodida por um míssil. Ele foi o único sobrevivente. "Quando terei os meus braços de volta?" perguntou. A história foi deixada cair. Bem, Tony Blair não o segurava nos seus braços, nem o corpo de qualquer outra criança mutilada, nem corpo de qualquer cadáver ensanguentado. O sangue é sujo. Suja a tua camisa e a tua gravata quando estás a fazer um discurso sincero na televisão.
Os 2.000 americanos mortos são um embaraço. São transportados para as suas tumbas na escuridão. Os funerais são discretos, a salvo. Os mutilados apodrecem nas suas camas, alguns para o resto das suas vidas. Assim, os mortos e os mutilados apodrecem ambos, em diferentes tipos de tumbas.
Eis um extracto de um poema de Pablo Neruda: Explico Algumas Coisas:

E uma manhã tudo estava ardendo
e uma manhã as fogueiras
saíam da terra
devorando seres,
e desde então fogo,
pólvora desde então,
e desde então sangue.
Bandidos com aviões e com mouros,
bandidos com alianças e duquesas,
bandidos com frades negros abençoando
vinham pelo céu a matar crianças,
e pelas ruas o sangue das crianças
corria simplesmente, como sangue de crianças

Chacais que o chacal recusaria,
pedras que o cardo seco morderia cuspindo,
víboras que as víboras odiariam!

Frente a vós vi o sangue
de Espanha levantar-se
para afogar-vos numa só onda
de orgulho e de facas!

Generais
traidores:
olhai a minha casa morta,
olhai a Espanha quebrada:
mas de cada casa morta sai metal ardendo
em vez de flores,
mas de cada vão de Espanha
sai a Espanha,
mas de cada criança morta sai uma espingarda com olhos,
mas de cada crime nascem balas
que vos acharão um dia o lugar
do coração.

Perguntareis por que a sua poesia
não nos fala do sonho, das folhas,
dos grandes vulcões do seu país natal?

Vinde ver o sangue pelas ruas,
vinde ver
o sangue pelas ruas,
vinde ver o sangue
pelas ruas!

Deixem-me tornar claro que citando o poema de Neruda não estou de modo nenhum a comparar a República Espanhola com o Iraque de Saddam Hussein. Cito Neruda porque em nenhum outro lugar da lírica contemporânea li uma descrição tão visceral e poderosa do bombardeamento de civis.
Disse antes que os Estados Unidos estão agora a ser totalmente francos ao pôr as suas cartas na mesa. Esse é o caso. A sua política oficial declarada é agora definida como “domínio de espectro total”. Este não é o meu termo, é o deles. “Domínio de espectro total” quer dizer controle da terra, mar, ar e espaço e todos os seus recursos.
Os Estados Unidos ocupam agora 702 bases militares por todo o mundo em 132 países, com a honrosa excepção da Suíça, claro. Não sabemos muito bem como chegaram lá, mas o facto é que estão lá.
Os Estados Unidos possuem 8.000 cabeças nucleares activas e operacionais. Duas mil estão em alerta permanente, prontas a serem lançadas 15 minutos após aviso. Estão a desenvolver novos sistemas de força nuclear, conhecidos como destruidores de bunkeres [bunk busters]. Os britânicos, sempre cooperativos, estão a planear substituir o seu próprio míssil nuclear, o Trident. A quem, pergunto-me, estão a apontar? A Osama Bin Laden? A ti? A mim? A Joe Dokes? China? Paris? Quem sabe? O que sim sabemos é que esta loucura infantil – a posse e a ameaça de uso de armas nucleares – está no cerne da actual filosofia política dos Estados Unidos. Devemos recordar a nós mesmos que os Estados Unidos estão numa permanente postura militar e não mostram sinais de a relaxar.
Muitos milhares, se não milhões, de pessoas nos próprios Estados Unidos estão manifestamente enojados, envergonhados e zangados pelas acções do seu governo, mas tal como estão as coisas não são uma força política coerente – ainda. Mas a ansiedade, a incerteza e o medo que podemos ver a crescer diariamente nos Estados Unidos não é provável que diminua.
Sei que o presidente Bush tem muitos escritores de discursos competentes, mas gostaria de oferecer-me como voluntário para o emprego. Proponho o seguinte breve discurso que ele pode fazer na televisão à nação. Vejo-o solene, com o cabelo cuidadosamente penteado, sério, confiante, sincero, frequentemente sedutor, por vezes empregando um sorriso irónico, curiosamente atraente, um autêntico macho.
Deus é bom. Deus é grande. Deus é bom. O meu Deus é bom. O Deus de Bin Laden é mau. O seu é um mau Deus. O Deus de Saddam era mau, só que ele não tinha um. Ele era um bárbaro. Nós não somos bárbaros. Nós não cortamos as cabeças das pessoas. Nós acreditamos na liberdade. Deus também. Eu não sou bárbaro. Eu sou o líder democraticamente eleito de uma democracia amante da liberdade. Somos uma sociedade compassiva. Ministramos uma electrocução compassiva e uma compassiva injecção letal. Somos uma grande nação. Eu não sou um ditador. Ele é. Eu não sou um bárbaro. Ele é. E ele é. Todos eles são. Eu possuo autoridade moral. Vêem este punho? Esta é a minha autoridade moral. E não o esqueçam".
"A vida de um escritor é extremamente vulnerável"
A vida de um escritor é extremamente vulnerável, quase uma actividade nua. Não temos que chorar por isso. O escritor faz a sua eleição e fica colado a ela. Mas é verdadeiro dizer que estamos expostos a todos os ventos, algum deles certamente gelados. Estás por tua conta, sobre uma perna. Não encontras refúgio, nem protecção – a não ser que mintas – em cujo caso, evidentemente, terás construído a tua própria protecção e, poderia argumentar-se, ter-te-ás transformado num político.
Referi-me à morte bastantes vezes esta tarde. Vou citar agora um poema meu chamado Morte

Onde foi o cadáver encontrado?
Quem encontrou o cadáver?
Estava o cadáver morto quando o encontraram?
Como estava o cadáver encontrado?

Quem era o cadáver?

Quem era o pai ou filha ou irmão
ou tio ou irmã ou mãe ou filho
do morto e abandonado cadáver?

Estava o cadáver morto quando foi abandonado?
Foi o cadáver abandonado?
Por quem tinha sido abandonado?

O cadáver estava nu ou vestido para uma viagem?

O que o fez declarar morto o cadáver?
Declarou morto o cadáver?
Quão bem conheceu o cadáver?
Como soube que o cadáver estava morto?

Lavou o cadáver?
Fechou ambos os seus olhos?
Enterrou o corpo?
Deixou- o abandonado?
Beijou o cadáver?

Quando olhamos para um espelho pensamos que a imagem que nos enfrenta é exacta. Mas se nos movemos um milímetro a imagem muda. Estamos na verdade a olhar para um interminável leque de reflexos. Mas algumas vezes o escritor tem que estilhaçar o espelho – pois é do outro lado do espelho que a verdade nos olha.
Creio que, apesar das enormes dificuldades que existem, uma firme, inquebrantável, feroz determinação intelectual, como cidadãos, para definir a autêntica verdade das nossas vidas e das nossas sociedades é uma obrigação crucial que nos diz respeito a todos. É, realmente, obrigatório.
Se tal determinação não estiver incorporada na nossa visão política, não temos esperança de restaurar o que está quase perdido para nós – a dignidade do ser humano.

Mensagem de Natal da Associação José Afonso

Um bom Natal e um novo ano cheio de utopias

Utopia
(José Afonso)




Cidade
Sem muros nem ameias
Gente igual por dentro
Gente igual por fora
Onde a folha da palma
afaga a cantaria
Cidade do homem
Não do lobo, mas irmão
Capital da alegria

Braço que dormes
nos braços do rio
Toma o fruto da terra
É teu a ti o deves
lança o teu desafio

Homem que olhas nos olhos
que não negas
o sorriso, a palavra forte e justa
Homem para quem
o nada disto custa
Será que existe
lá para os lados do oriente
Este rio, este rumo, esta gaivota
Que outro fumo deverei seguir
na minha rota?


A Direcção da AJA

quarta-feira, dezembro 24, 2008

Nossa Mensagem de Natal


Natal!
A noite que se avizinha é de poesia, luz, magia, alegria, paz e fraternidade. Porém, nem sempre é possível sequer ver a olho nu o diâmetro dessa utopia, mas, sem dúvida alguma, este é o momento alto do ano no qual as crianças têm a capacidade de tocar, com aqueles ingredientes da alma, os anatómicos nervos do ser humano.
O ideal, num mundo perfeito, seria que esta noite fosse a noite de todos os dias, madrugada de todas as alvoradas, da qual fossem possíveis para todos Emprego, Segurança Social, Habitação condigna, Saúde, Ensino e demais realizações sociais. Mas, infelizmente, a actual sociedade - apesar de, dialecticamente, mais evoluída do que em tempos de outrora –, vive em permanente busca mas rodeada de perigos a espreitá-la, qual ovelha por entre montes de alcateias. Se há crise, em 2009 sejam os mais favorecidos a suportá-la!
Feliz Natal e Bom Ano Novo

Mensagem de Bom Natal de um amigo

Em Ouro Negro seguia-te os passos velozes mas tu dobravas sempre as esquinas em avanço. Estranha persistência ordenava-me que perseguisse a tua incessante busca. Uma procura de uma procura. Cruzei praças, subi morros, desci morros, atravessei adros e acordei missas adormecidas. Ofegante, perguntava às floristas se te viram passar, mas elas respondiam apenas que uma flor procura o seu jardim. Sentado no velho teatro em forma de lira vislumbrei-te num ápice, por detrás da cortina. Mas de novo me perdi no meio de um pagode-chinfrim entre risos e máscaras animalescas. Por momentos, senti que o afã de encontrar-te era, afinal, o desencontro ou a simples circulação de mim para mim. Mas eis que te vejo na antiga praça, encostada ao pelourinho onde os escravos eram humilhados, torturados e mutilados. Tirei-te as pesadas grilhetas, perguntando-me como conseguiras correr tão veloz. Sorri-te e imaginei-me a dizer-te para sempre que era dono de nada, senhor de ninguém.

João Teixeira Lopes

domingo, dezembro 21, 2008

Mensagem de Natal do Bispo do Porto

Recebemos do nosso amigo Padre Américo Aguiar, da Diocese do Porto, a seguinte mensagem de Natal, do senhor Bispo do Porto, D. Manuel Clemente, em vídeo e colocada no youtube.

Agradecemos a mensagem e retruibuimos os simpáticos votos de Feliz Natal e de um bom Ano Novo, mais justo e solidário o quanto possível.

"A privatização da saúde e o SNS", por Bruno Maia

O Diário de Felgueiras recomenda vivamente a leitura do presente artigo de opinião, que retirámos do sítio da Internet www.esquerda.net
Independentemente da simpatia político-partidária de cada um de nós - editores e leitores deste jornal -, fazemos a recomendação da leitura por, genericamente, o autor deste espaço subscrever o referido texto, que é uma importante peça sobre a função social do Estado no campo da Saúde.


Desde a criação do SNS que a gestão dos hospitais públicos enfrenta uma dualidade de poderes: por um lado o poder administrativo directamente controlado pelo Ministério da Saúde e por outro lado o poder da decisão médica.
A este último poder é reconhecida a capacidade do critério clínico. Isto é, são os profissionais de saúde, e mais predominantemente os médicos, que no SNS têm confrontado o poder administrativo com a planificação das necessidades em função do conhecimento científico. A aquisição de novas tecnologias de diagnóstico, de novos fármacos, a criação de unidades especializadas em cuidados avançados, o desenvolvimento da emergência pré-hospitalar assentaram a sua força na exigência que a classe médica foi fazendo à administração pública no sentido de tornar os serviços mais eficazes, modernos e capazes de oferecer os melhores cuidados. É na gestão deste poder partilhado que se foram construindo as unidades de saúde no SNS e é na existência de um poder do "critério clínico" que desde sempre foi possível desenvolver o SNS contra todas as vontades políticas de diminuir o seu financiamento.
Paralelamente, a investigação e o ensino foram dominantes exclusivos dos hospitais públicos, o que significa que o desenvolvimento científico esteve, nas últimas décadas ligado também ele ao "critério clínico". Mas o poder do critério clínico está hoje ameaçado. Em primeiro lugar, está ameaçado por um discurso que cresceu de importância nos últimos 10 anos e que foi o discurso dominante da "contenção dos gastos" em saúde, que se disseminou pelos profissionais. Ora se é verdade que os profissionais devem exercer a sua prática conscientes do valor dos recursos que utilizam e fazer desse uso uma prática criteriosa, não é menos verdade que a hegemonização deste discurso produz tomadas de decisão "cautelosas" que muitas vezes inibem a aposta no investimento e no desenvolvimento. Depois, o poder do critério está, em última análise, ameaçado pelo crescimento do investimento privado na saúde.

A clientelização da saúde e a criação de necessidades artificiais

Quem vive as práticas da saúde e da doença no SNS reconhecerá os defeitos das práticas que a seguir enuncio. Se nos últimos 30 anos a prática da medicina privada era dominada pelos consultórios privados, detidos pelos clínicos que exerciam o centro da sua actividade no SNS, o quadro tem mudado de figura nesta última década. É já na última década que têm surgido grandes investimentos e infra-estruturas de saúde privadas - os hospitais privados. Há algumas práticas nestas unidades que nos revelam curiosidades implícitas sobre o mundo da saúde privada. No Hospital da Luz, detido pelo grupo BES - Espirito Santo Saude, não há doentes nem há utentes, há clientes. A administração daquela unidade prefere o adjectivo "clientela" para se referir aos seus utentes. Na verdade o termo resume tudo: o doente-cliente compra os serviços do hospital da luz, escolhe os métodos de diagnostico e adquire os tratamentos. Não existe nenhuma política da casa, nenhum protocolo que se sobreponha à vontade do doente-cliente: se o doente-cliente quiser fazer uma TAC ao corpo todo, fá-lo-á, com o apoio da administração, mesmo que não tenha nenhuma indicação e que o exame seja danoso para a sua saúde. E aqui não entra nenhum critério clínico. Muitos podem afirmar que "saúde a mais não faz mal a ninguém" e que realizar um número disparatado de exames à escolha do doente-cliente não o prejudica. Mas a verdade é que, para além desta prática não traduzir qualquer ganho na saúde da população, ele tem implícita um conceito de saúde errado que ofusca o mais importante: a aposta na promoção da saúde e na prevenção primária - repetir exaustivamente exames durante o ano não previne o aparecimento de doenças. E é nesta área fulcral da saúde das populações que o privado não tem interesse em investir pois não tem rentabilidade imediata. Depois são hoje conhecidos os efeitos do excesso da medicina nas nossas vidas e que alguns autores denominaram por "iatrogénese social" - isto é, repetir exames inúteis pode levar os indivíduos a submeterem-se a práticas com algum risco desnecessário para a sua saúde.
A par disso, não é de admirar que as unidades privadas disponham de um aparato de marketing e de publicidade que induzam este tipo de comportamentos por parte do seu doente-cliente. Nas clínicas da CUF, por exemplo, é usual oferecerem-se "packs" de check-up a toda a família - por um preço mais acessível o indivíduo pode fazer uma série de exames, na verdade desnecessários, em troca da promessa de uma saúde de ferro. A medicina privada cria necessidades falsas na população, incentivando o seu consumo acriterioso e dispendendo recursos valiosos, que poderiam ser aplicados na redução das listas de espera no SNS.
Começam a surgir aqui duas medicinas: a dos pobres, residente num SNS sub-financiado, cada vez com menos profissionais, com cada vez menos resposta válida face às necessidades e a medicina dos "endinheirados", das unidades privadas de saúde, ricas em recursos tecnológicos, que medicalizam a vida dos seus "clientes" oferecendo-lhes procedimentos e tratamentos que excedem as suas necessidades reais, criando assim valor no consumo sem critério.
Uma politica de esquerda não pode ficar indiferente a esta mercantilização. Só há uma forma justa de fornecer cuidados de saúde à população, garantindo equidade no seu acesso. E essa forma designa-se Serviço Nacional de Saúde. Só um SNS com mais investimento, com mais recursos pode ser competitivo com o domínio da saúde privada. E só um SNS equipado e organizado pode garantir algo que o grupo Mello nunca o fará: democracia no acesso à saúde.



sábado, dezembro 20, 2008

Sondagem

Caros leitores:
Pedimos que responda às três perguntas colocadas na coluna direita deste jornal sobre o papel da Oposição política em Felgueiras.
A votação está disponível durante seis dias.

sábado, dezembro 13, 2008

"Salvem os ricos", pelo "Os Contemporâneos"

Campanha de angariação de bens e equipamentos

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A Casa do Povo da Longra (CP Longra), em parceria com as Juntas de Freguesia de Rande, Pedreira e Sernande, na próxima segunda-feira, vai lançar uma campanha de bens e de equipamentos a favor das escolas da cidade de Chancungo, da Guiné-Bissau, que surgue em seguimento de um protocolo de amizade e cooperação recentemente assinado entre a CP Longra e a Associação de Naturais e Amigos de Chancungo.
Os interessados poderão oferecer livros em geral e manuais escolares, computadores e impressoras, CD's e DV's, todo o tipo de material escolar e outros bens e equipamentos. Os locais de entrega são: nas instalações da CP Longra - de 2.ª a 6.ª feira, a partir das 21 horas, aos sábados, a partir das 15 horas -; nas escolas do concelho e nas Juntas da Vila da Longra, nos horários de funcionamento.